Pecuária

A irrigação de pastagens no Brasil

No passado, alguns trabalhos que compararam a produção da pastagem irrigada e não irrigada, nas estações de outono/inverno, chegaram à conclusão de que era economicamente inviável irrigar pastagens nesta época porque a baixa intensidade luminosa e as baixas temperaturas dos ambientes limitavam a resposta da planta forrageira à irrigação. A estagnação de produção de forragem não era alterada, e os resultados acabaram levando os produtores e técnicos a abandonarem o uso da irrigação de pastagens por muito tempo.

Entretanto, pesquisas recentes e resultados de campo, têm demonstrado a possibilidade de se conseguir manter em pastagens irrigadas, no período da seca, de 40 a 60% da taxa de lotação animal que é mantida na primavera – verão. Por exemplo, se a taxa de lotação da pastagem for de 5,00 UA/ha na primavera/verão, seria possível manter de 2,00 a 3,00 UA/ha no período da seca, índice muito bom se considerarmos que em pastagens não irrigadas só se consegue manter de 10 a 20 % da taxa de lotação obtida no período das chuvas em pastagens manejadas intensivamente, o que significaria abaixar a taxa de lotação de 5,0 UA/ha para 0,50 a 1,00 UA/ha.

A irrigação com 25 a 30 mm, a cada 15 dias, em capim coast-cross, possibilitou carregar uma lotação de 5,9 e 3,0 vacas/ha, nos períodos de verão e inverno respectivamente, dando uma relação inverno/verão de 51%.

As vacas recebiam 3 Kg de concentrado/dia. Com o fornecimento de 6 Kg de concentrado/vaca/dia, as lotações foram de 6,40 e 3,7 vacas/ha nos períodos de verão/inverno, respectivamente, dando uma relação inverno/verão de 57% (Vilela e Alvim, 1996).

Alvim et al., (1986) irrigou 11 espécies de forrageiras e conseguiu produção de inverno de 30,50% da produção anual (5,6 t MS/ha ÷ 18,33 t MS/ha). Mas dividindo a produção de MS do inverno pela MS produzida no verão, e não no ano, teremos 5,6 t MS/ha ÷ 12,734 t MS/ha, o que dá uma relação inverno/verão de 44%.

Corsi e Martha Júnior (1998) citaram que em uma fazenda em Penápolis, SP, com o cv tanzânia, foi possível manter 3,50 UA/ha no inverno, lotação que representou 50% da obtida no verão.

Para se ter resultados positivos com a irrigação de pastagens tropicais, a temperatura ambiente não pode estar abaixo de 15ºC, sendo este o fator ambiental que mais limita a resposta da planta forrageira à irrigação. A luminosidade só influencia em 10% a produção de forragem. A melhor resposta ocorre no verão, quando a temperatura é alta, possibilitando aumentos de 20 a 30% na produção de forragem. Nos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul, a produção no inverno é em média 50% da do verão. Nos Estados de Goiás, Mato Grosso, Bahia, Tocantins é possível manter no inverno até 70% da lotação do verão. Em São Paulo, a lotação chega a cair 60%, possibilitando a manutenção de 40% da taxa de lotação alcançada no verão.

Aguiar e Almeida (1998) demonstraram que com a introdução da irrigação, em uma fazenda leiteira, foi possível manter quase o mesmo custo do leite durante as duas estações do ano (R$ 0,171 X R$ 0,175/litro), e uma redução de 18% no custo total do leite durante a seca, ao introduzir a irrigação das pastagens, o que possibilitou uma redução de 28,50% nos custos variáveis com as vacas em lactação e uma redução de 46% nos custos com alimentação neste período, demonstrando a viabilidade do uso desta tecnologia. Neste trabalho não foi considerado que a irrigação ainda contribui com o aumento da produção de forragem na época das chuvas quando ocorrem os períodos de veranico, com 15 ou mais de 20 dias sem chuvas; com dias muito quentes e alta intensidade luminosa; condições ambientais muito favoráveis para a resposta de pastagens adubadas intensivamente e irrigadas; além da maior segurança de se obter realmente a quantidade de forragem necessária para este período, sem ter que ficar preocupado com a resposta às adubações por falta de chuvas. As adubações nitrogenadas e potássicas podem ser feitas por fertirrigação com custos muito menores, pois não envolvem máquinas, além das perdas serem menores.

Produtores de leite têm conseguido produções de 15.000 a 18.000 litros de leite/há/ano, normalmente com sistemas de aspersão com canhões. O potencial em pastagens irrigadas é maior que 37.000 litros/há/ano, como foi obtido na EMBRAPA – Gado de leite por Vilela e Alvim.

Produtores de carne têm conseguido custos de produção de uma arroba variando entre R$ 12,00 e R$ 20,00 em sistemas de pastagens irrigadas com pivô central, com produção de 60 a 80 @/há/ano. Mas o potencial é ainda maior e projetado para produções de mais de 100 @/há/ano, com taxas de lotação de 10 a 12 UA/ha e ganhos/animal de 0,800 a 1,00 Kg/dia.

Entretanto, apesar de todo o potencial dos sistemas com pastagens irrigadas, mais uma vez uma tecnologia aparece como sendo milagrosa, atraindo muitos produtores, que na grande maioria das vezes não estão preparados para o uso deste sistema intensivo de produção. A irrigação deve ser usada somente quando o produtor já chegou no terceiro nível de intensificação do uso da pastagem e agora a limitação para explorar ainda mais o potencial de produção da forrageira é a falta de água. Muitos erros têm sido cometidos a campo, tais como a aplicação da mesma lâmina por todo o ciclo da planta, sendo freqüente irrigar muito ou pouco, o que causa sérios problemas na produção de forragem; o desconhecimento da evapotranspiração para a reposição de água; baixos níveis de adubação e desequilíbrio de nutrientes; erros em ajustar a taxa de lotação animal, entre outros.

Pelo lado da pesquisa resta tentar responder e validar muitas perguntas, tais como dados específicos da necessidade de água (mm/t de matéria seca) de forrageiras; necessidade específica de água nas diferentes fases do ciclo da planta; eficiência das adubações comparado com um sistema de sequeiro; graus de adensamento do solo; modelos de gerenciamento da produção de carne em sistemas irrigados e a sua viabilidade econômica, entre outros.

 

Fonte: http://www.coram.com.br/Site/dicas3.asp