Produtivo

A florada tem início no outono

Para aumentar a produção, o citricultor deve promover e cuidar das brotações do outono, responsáveis pela florada na primavera

Escrito por Décio Joaquim
São muitos os fatores responsáveis pela maximização da eficiência produtiva das culturas agrícolas. Vários deles ligados ao solo; alguns, ao clima; outros tantos aspectos referem-se à problemática fitossanitária. Através de práticas de cultivo, do uso de corretivos, da fertilização, da irrigação, do controle de doenças, insetos e de plantas daninhas, o agricultor procura valer-se da tecnologia conhecida para suprir e corrigir as deficiências de seus plantios, na intenção de produzir mais e melhor.
Apesar de reconhecermos que os itens citados têm todos, expressiva parcela de contribuição na obtenção de produtividade, não se pode desconsiderar o conhecimento sobre a planta e suas características botânicas, nessa difícil empreitada de aumentar a média de produção por área explorada. Conhecer algumas características particulares de cada espécie, sejam elas genéticas, morfológicas ou fisiológicas, torna-se um roteiro essencial para fazer com que cada uma daquelas ferramentas à disposição do produtor possa funcionar eficientemente.
Considerando especificamente as plantas cítricas, é fundamental analisar a importância de que se revestem os momentos do florescimento e da fixação dos frutos (“pegamento”) na constituição final da produção.

Quanto maior for a capacidade fotossintética efetiva da laranjeira por ocasião do final do outono, tanto maior serão as concentrações de reservas de carboidratos acumuladas em folhas e raízes, propiciando considerável fonte de reguladores de crescimento, responsáveis, naquela estação do ano, pela indução das brotações que aflorarão na primavera seguinte.
Com isso, podemos discorrer sobre a questão: o que se deve fazer para melhorar as condições da planta cítrica no outono?

Boas condições para a indução

A florada é sempre precedida por uma fase de latência, imposta por baixas temperaturas, seca ou temperaturas elevadas (Sanches, 2000).
A floração é maior sobre ramos formados no início do outono. Guardiola et al., (1981) demonstraram que gemas com cinco meses de idade apresentaram maior índice de brotação, quando comparadas à gemas de mais de um ano.
Experimentos já provaram que a retirada precoce dos frutos aumenta significativamente a floração do ano seguinte. A prática mostra ao produtor que uma colheita tardia diminui a próxima florada.  Também é realidade que as variedades precoces (colhidas mais cedo) produzem bastante e praticamente não sofrem com alternância de produção.
Pode-se associar essas ocorrências ao fato de que a inibição da floração pela presença de frutos nos ramos acontece em algum momento anterior ao repouso invernal, onde ocorre um determinado processo básico, responsável pela floração e que a literatura assinala como indução (García-Luis et al., 1995, citado por Sanches, 2000).
De modo geral, as baixas temperaturas que são uma das causas da “dormência” da planta cítrica, têm uma função específica no “despertar” das gemas já induzidas. O termo “baixas temperaturas”, não significa necessariamente geada, e deve ser imaginado como sendo as médias das mínimas temperaturas para o local e a época do ano. Temperaturas mínimas diárias entre 15°C e 20°C, para o estado de São Paulo, entre maio e julho, não são extraordinárias e têm ocorrido com certa frequência.
O efeito quantitativo do estresse hídrico na floração é similar ao térmico. Quanto maior sua duração, maior a intensidade da floração.
Entende-se que existe uma proporcionalidade entre os diversos fatores envolvidos: metabolismo nutricional, safra pendente, arquitetura geral da planta, idade, quantidade de ramos, idade das gemas, extensão da seca, tipo de solo, variedades de copa e cavalo, abertura de estômatos, umidade relativa do ar, temperaturas locais, além de outros. Isso mostra que os resultados serão tanto melhores, nesse caso, melhor será a florada, quanto mais próximos do ideal forem os níveis atingidos para cada parâmetro.
Portanto, para uma boa floração é necessária uma grande quantidade de gemas recentes, advindas de ramos formados no outono, além de temperaturas adequadas para a indução e de temperaturas ou condições hídricas que predisponham as plantas à condição de estresse forçando a redução do seu metabolismo, propiciando acúmulo de carboidratos.
Todas as práticas que se puder fazer para intensificar as brotações de verão e de outono serão consideradas vantajosas do ponto de vista da presença de mais gemas aptas ao florescimento na primavera seguinte.

Fonte de energia

Qualquer atividade realizada por plantas ou animais acontece mediante gasto de energia. É mais do que uma constatação. É uma verdade.
No caso dos vegetais, a concentração energética tem como base a fotossíntese. A fotossíntese realiza-se em partes verdes das plantas, principalmente nas folhas. As folhas, quando muito novas, não apresentam significativa taxa fotossintética, que vai aumentando com a idade das mesmas.
No caso das brotações que ocorrem na época do florescimento, a quantidade de folhas novas é bem superior à quantidade de flores e por serem novas, essas folhas para desenvolverem dependem, em muito, das reservas da árvore, concorrendo, naquela ocasião específica, com o pegamento dos “chumbinhos”. Posteriormente, num segundo momento, essas mesmas folhas assumirão papel importante para a manutenção e o crescimento das frutas.
Essa situação deve ser atenuada pelo produtor. A aplicação foliar de bioreguladores, principalmente os promotores de crescimento, representados pelas auxinas, giberelinas e citocininas, em combinação com os nutrientes, promovem a elevação no teor de carboidratos, especialmente a sacarose e a glicose, fonte de energia para o desenvolvimento da própria planta, com maior pegamento de frutos e, consequentemente, maior produtividade (Blanco et al., 1994, citado por Domingues, 2009). Partindo desse princípio, o uso de bioreguladores no verão e outono, nas temporadas de expansão, facilita o surgimento de brotações. A cada novo surto de brotações, o pomar deve receber uma nova aplicação foliar de elementos minerais, fazendo com que o desgaste das reservas da árvore na manutenção das novas folhas seja minimizado. Evidente que o crescimento da planta estará também condicionado à adubação de solo.
O grande segredo para a maior fixação de frutos está na nutrição, que propiciará um maior enfolhamento, com maior concentração de carboidratos e maiores fontes de reserva energética.
Nutrição deve ser entendida como um amplo e complexo sistema, do qual fazem parte os nutrientes essenciais, alguns outros elementos minerais e inúmeras substâncias orgânicas que participam da fisiologia das plantas.
De uma maneira errada, alguns elementos muito importantes no roteiro da energia, como o magnésio e o fósforo, são relegados a um segundo plano, deixando de serem utilizados, na maioria das vezes. Eles são fundamentais e merecem destaque, tanto quanto o nitrogênio, o zinco, o manganês, o cálcio e o boro. Todos com participações importantes no processo metabólico.
Além de ser um constituinte da clorofila e ter papel em várias das reações da fotossíntese, o magnésio ativa mais enzimas que qualquer outro elemento; ele é especialmente notável na ativação do sistema enzimático na transferência de fosfato (energia). Já o fósforo é o elemento que tem o papel-chave em todos os metabólitos relacionados com a aquisição, estocagem e utilização de energia: açúcares fosfatados, adenosinas fosfatadas (AMP, ADP, ATP) e em nucleotídeos e ácidos nucléicos (Epstein & Bloom, 2006).
De maneira resumida, vimos que a extensão do processo do florescimento tem início bem antes da flor ser apreciada na primavera. A planta produz novas brotações entre a primavera e o outono, que terão parte de suas gemas estimuladas a produzir, necessitando, para tal, de energia que é conseguida graças à diminuição de sua atividade metabólica, provocada, normalmente, por conta de um período de seca, florescendo em seguida, na primavera.
Altas produções estão diretamente relacionadas a uma arquitetura mais funcional das plantas, com a presença de um maior número de ramos e a sua capacidade de gerar e armazenar mais energia a fim de promover maior presença de frutos e fazê-los crescer adequadamente, segundo a variedade.

Eng°.Agr°.Décio Joaquim, Campo Consultoria/GTACC
( deciojoaquim@uol.com.brEste endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. )
Colaboração: Stoller do Brasil

LITERATURA CONSULTADA
DOMINGUES, M.C.S. (2009)  Manejo das brotações
outonais para altas produtividades. Informativo
Agropecuário Coopercitrus, março de 2009, ed. 268.
EPSTEIN, E. & BLOOM, A. (2006)  Nutrição mineral de
plantas: princípios e perspectivas.
Trad. Maria Edna Tenório Nunes. Londrina: Edit.Planta, 403p.
GUARDIOLA, J.L. (1981)  Flower initiation and
development in citrus. Proc.Int.Soc.Citriculture, 1:242-248.
SANCHES, F.R. (2000)  Aplicação de biorreguladores
vegetais: aspectos fisiológicos e aplicações
práticas na citricultura mundial. Jaboticabal: Funep, 160p.

Matéria retirada da Revista Coopercitrus (http://www.revistacoopercitrus.com.br/)

Fonte: http://www.agrofit.com.br/portal/citros/55-citros/201-a-florada-tem-inicio-no-outono-