Raças

A fantástica Cabra Azul

De onde vieram as cabras azuis, tão comuns, aqui e acolá, e sempre estimadas pelo sertanejo nordestino? Há mais de um século existem citações sobre a Cabra Azul, ora pelo afeto do dono, ora por ter sido um presente familiar, ora pela produção de leite, ora por ter sido excelente guia de rebanho, etc.

Uma coisa é certa: todo mundo gosta das cabras azuis.

Talvez porque sejam da cor do céu de Deus nosso Senhor! E lá vão elas, sempre com chocalho, conhecedoras de cada palmo das caatingas nordestinas. É interessante notar que os sertanejos penduram os chocalhos, em primeira mão, nas cabras azuladas, porque sabem – pela intuição e pela tradição – que elas são mais rústicas, mais produtivas e mais dóceis. Isso será verdade? Parece que sim: o estudo das origens da Cabra Azul garantem que isso é verdade em muitos países! De fato, o maior uso das cabras azuis, no mundo, é como “bichinho de estimação”… No Brasil, no entanto, a Cabra Azul cresceu, é catingueira e forte, não é “bichinho de estimação” mas é cabra de estimação, com certeza!

Mesmo tendo sofrido toda sorte de mestiçagem no correr das décadas, a cabra Azul continua firme, com milhares de indivíduos espalhados pelas caatingas, merecendo há tempos uma atenção maior. O problema é que os sertanejos gostam muito dela e não estão dispostos a vendê-la. E as Azuis, azulegas, azulonas, azulãs, “zulanhas”, etc. vão permanecendo vivas, por todos os cantos e poucos conseguem formar um rebanho.

A pele é escura, as mucosas nasal e perineal são negras ou em tom cinza-escuro. A pelagem é azulada, ou cinza-azulada, podendo apresentar as extremidades bastante escuras. Algumas apresentam o debrum (contorno fortificado) da orelha também escuro. A grande maioria apresenta uma “estrela” clara na testa. O objetivo é conseguir animais com coloração azul cada vez mais vivo. Cabras lindas são comuns; difícil é um bode bonito! A revista “O Berro” ficou na espreita por 10 anos até encontrar um reprodutor que preenchesse todas as características. Ele está nas fotografias.

Há cerca de 15 anos, a revista O Berro fez campanha para abrir novos criatórios dessa cabra que tem homólogas na África, Europa e Estados Unidos. Surgiram alguns adeptos, no Nordeste e no Sudeste. Manuel Dantas Vilar Filho, da Fazenda Carnaúba, mantém um rebanho numeroso, sendo o “consolidador” da raça na modernidade, com capacidade para alicerçar a fundação de muitos outros rebanhos. Agora, a Cabra Azul pode progredir, com certeza.

Na África – A cabra Azul é originalmente africana, do grupo “Wad” (que significa “West African Dwarf”, ou “cabras pequenas do oeste africano”).

As orelhas são curtas a medianas, eretas ou horizontais. Chifres curtos (base larga nos machos, mais delicado nas fêmeas); alguns indivíduos são naturalmente mochos. O pêlo é bastante curto mas os machos apresentam um pêlo mais duro, longo, descendo pelas coxas. A coloração mais comum é “agouti selvagem” (castanho-amarelado ao cinza, com posterior mais escuro, barriga e cauda), ou negra, parda, cinza, ou branco-preto ou tricolorida (branca, vermelha e negra) mas outras colorações, incluindo o branco e amarelo também são vistas. Às vezes, encontra-se um indivíduo totalmente azul, aqui e acolá!

São animais dóceis, do tamanho de um cachorro e gostam da companhia humana exatamente como um cão. Jamais precisam ser amarradas! Esta é uma de suas principais características.

É fácil distinguir dois tipos primordiais de Cabra Azul: a Nigeriana (da Nigéria) e a Camaronesa (de Camarões).

A Camaronesa Cabra Azul é curta, peluda, uma típica representante do grupo “Wad”. Tem um corpo pesado, cabeça mais larga e focinho mais curto que a Nigeriana. Tradicionalmente ela é cinza (variando do cinza-prata até o cinza escuro), com leves tons escuros, principalmente na face. Apresenta, quase sempre, uma “estrela branca” na testa e orelhas claras ou chitadas de branco. Os pêlos descem pelas pernas geralmente curtas e fortes. Os chifres dos machos crescem para cima, autocurvando-se para a face, formando depois um arco para fora em leve elipse em torno de si mesmo. As pontas dos chifres das fêmeas curvam levemente para a frente em direção à face.

Existem inúmeras denominações para estas cabras africanas: African Dwarf (Africanas Miúdas), Djallonké ou Fouta Djallon, Forest Goat (Cabra da Floresta), Grassland Dwarf (Miúda da Savana), Chèvre Naine des Savanes (Miúda das Savanas). Nomes locais: Cameroon Dwarf (Miúda de Camarões), Chèvre de Casamance (Senegal), Diougry ou Chèvre Naine de L’Est (Mauritânia), Kosi (Camarões), Nigeriam Dwarf (Miúda da Nigéria). Variedades na África: Congo Dwarf (Miúda do Congo), Cote d’Ivoire Dwarf (Miúda da Costa do Marfim), Ghana Forest Goat (Cabra da Floresta de Ghana), Kirdi (Chad), Mossi (Burkina).

Recentemente, essas cabras “miúdas” são bastante procuradas como “pets” (animais de estimação) na Europa e Estados Unidos. Nos EUA formaram-se as raças “African Pygmy” (Anãs africanas), através de animais da Alemanha, e da Nigeriam Dwarf (Miúda Nigeriana). Na Inglaterra formou-se a Pygmy (Anã). Na Holanda formou-se a Dutch Dwarf (Miúda Holandesa).

Na Inglaterra – Até 1870 essas cabras estavam expostas no Zoológico de Londres e foram expostas no Crystal Palace Show, em 1875, onde o famoso criador britânico Sam Woodiwiss comprou um lote para iniciar uma criação. Dois tipos extremos foram, então, estabelecidos na Inglaterra.

– O primeiro é originário do grupo “West African Dwarf” (“Wad”), com membros muito curtos, um pequeno ventre tubular caído, corpo arredondado e uma cabeça nitidamente pequena.

– O segundo tipo é semelhante ao grupo do sudeste sudanês ou talvez do grupo de pequenas cabras do Leste Africano. São pequenos animais mas com membros proporcionais.

Estes dois grupos juntaram-se na Inglaterra onde foi fundado o Pygmy Goat Club, mantendo as denominações de cada tipo de acordo com o país de origem: Nigeriana, Camaroneana, ou simplesmente do Cabra do Oeste Africano, ou Nilótica, ou Sudanesa, etc.

Na Inglaterra, estas cabras recebem o nome de “Pygmy” (miúdas ou anãs): são robustas e compactas, de cabeça e pescoços curtos, carcaça forte e bem musculada. Estão sempre alertas. Os machos apresentam mais pêlos que as fêmeas. Modernamente, admitem-se todas as pelagens. As principais são de fundo branco, com manchas coloridas ou, então, de duas cores. Sempre surgem animais com pelagem azul, ou cinza-azulado. As orelhas são eretas e a face ligeiramente abaulada. Todas são chifrudas. Altura máxima: 56-53,5 cm, mínima de 40,5 cm. Peso médio: 20-25 kg (tipo Wad) e 11-25 kg (tipo do Sudão).

Nos Estados Unidos – O Registro Genealógico da African Pygmy (Anã africana) começou em 1975, nos Estados Unidos. Hoje já existe a variedade “Kinder” (significa “dócil”) por meio de cruzamentos com a raça Anglo-Nubiana, cujo Registro começou em 1988, em Washington. A variedade “Pygora” começou em Oregon, em 1980, cruzando-se a cabra africana Pygmy com a Angorá, fundando-se um livro de Registro Genealógico em 1987. A raça “Nigerian Dwarf” (Miúda Nigeriana), nos Estados Unidos, foi importada entre 1950-1960 e também encontra-se em franca expansão, como a African Pygmy.

As cabras “miúdas” africanas estão em grande evolução nos Estados Unidos. São utilizadas como “cobaias” em centros de experiências nos Estados Unidos, devido, principalmente, à sua docilidade – ao lado de macacos, ratos, etc. Milhares de animais são comercializados com essa finalidade. Também são utilizadas em Zoológicos, para contato direto com crianças, em locais adequados. E, principalmente, são vendidas como animais de estimação. Um grande comércio, sem dúvida!

Conclusão – As cabras nativas brasileiras sequer foram catalogadas, integralmente. O livro “Goats of the World”, tentando mostrar todas as raças do mundo, incluiu algumas raças que haviam sido catalogadas pela revista O BERRO, tais como: Cabra Azul, Biritinga, Meridional, Guariba, Nambi, Canindé, Meísta, Colônia, Alcaçuz, Graúna, etc. As cabras nativas brasileiras, portanto, lentamente, vão ganhando um lugar ao sol. Muitas outras poderiam ser catalogadas. O mundo conhece mais as cabras da África que as do Brasil! Grande parte das cabras africanas têm homólogas no Brasil. A catalogação é tarefa relativamente fácil, portanto. A revista “O Berro” está preparando o livro “A cabra e a ovelha no Brasil” para mostrar todas as raças criadas no país e um mundo de informações que hoje estão confinadas dentro dos currais sertanejos.

A Cabra Azul sempre foi uma das preferidas do sertanejo. A análise apresentada acima mostra que a Cabra Azul, no Brasil, não é “miúda”. Muito pelo contrário, é uma cabra catingueira como todas as demais, de bom tamanho, precisando apenas de seleção. Assim, talvez por influência de 3.000 horas de sol, nas caatingas, a Cabra Azul brasileira apresenta o pêlo mais azul do mundo. Isso é assunto para se comemorar. Uma cabra de bom porte, com pêlo azul, teria alto valor no mercado mundial – com certeza!

O Brasil pode exportar Cabras Azuis para mais de 150 criadores de “Pygmy”, de “Kinder”, de “Pygora”, de “Wad”, de “Dutch Dwarf”, só como início de conversa. A Cabra Azul brasileira é superior a todas elas, comprovando que o catingueiro sempre esteve certo, dando preferência a esta dócil, muito dócil, cabra com a exata cor-do-céu. Sem dúvida é uma cabra abençoada por Deus!

Bibliografia:
– Goats of the World – Valerie Porter – Farming Press, Ipswich, United Kingdom – 1996
– A legendária Cabra Azul do Nordeste – Revista O Berro, n. 6, 1986
– Oklahoma University, World Livestock, Goats of the world – 2001.


Fonte: Publicado em “O Berro” nº 43 – Maio/Junho 2001.

http://www.cabanhainvernada.com.br/index.php?option=content&task=view&id=122&Itemid=31