Desperdício de Produção

A energia desperdiçada

Onorio Kitayama 

Como entender o desperdício energético?

Há um ano, o Brasil viveu a crise provocada pelo risco do apagão, com perspectivas de prejuízo incalculável ao país.

A medida adotada, e que impediu a ocorrência da crise anunciada, foi o racionamento. Ao final, verificou-se que a mesma havia se transformado em racionalização de consumo. Havia um grande desperdício na demanda. O efeito colateral foi que famílias e empresas, que nunca tinham imaginado que a eletricidade era uma conta administrável, tiveram uma boa surpresa.

A análise da situação demonstrava claramente que o país dispunha de capacidade de potência instalada mais do que suficiente para o atendimento do consumo. Porém, a falta de energia ofertada era conseqüência do modelo altamente dependente das hidrelétricas. Enfim, o que realmente estava faltando era água nos reservatórios, apesar de normalmente essa variação ocorrer de acordo com o regime sazonal de chuvas.

Diante do quadro sombrio e das pressões de toda a sociedade, a Câmara de Gestão da Crise constatou a origem do problema e vislumbrou a solução, ou seja, a imperiosa necessidade de desencadear o processo de diversificação das fontes de energia elétrica no país. Criou-se o Proinfa – Programa de Incentivos as Fontes Alternativas de Energia Elétrica. Dentre essas fontes alternativas, encontra-se a biomassa e, dentre essas, os resíduos da cana.

Os resíduos da cana, diferentemente de outras fontes energéticas, apresentam características específicas particularmente importantes para o país. Além da energia elétrica, também se produz outra energia muito importante da cana-de-açúcar; o álcool combustível.

Em termos macroeconômicos, com a cana o país produz açúcar para o abastecimento interno e para o mercado externo e álcool combustível para mistura na gasolina e para uso direto, com grande competência e com tecnologia totalmente nacional. São produtos competitivos, inclusive, em comparação com os custos de produção mundiais, o que abre perspectivas de, além de atender o mercado interno, aumentar a participação no mercado mundial, trazendo divisas tão necessárias à nossa economia. Com a co-geração, utilizando-se dos resíduos, essa competitividade será ainda muito maior, aumentando a possibilidade de se exportar mais açúcar e de abrir o mercado externo do álcool. Será possível até aumentar o uso interno do álcool carburante e exportar petróleo e seus derivados, diante da tendência desses produtos fósseis se tornarem mais caros a cada ano, e assim acumular um ativo importante de crédito de carbono para o país.

Ainda por uma dessas coincidências oferecidas pela natureza, a safra da cana na região Centro-Sul do Brasil coincide com o período seco, exatamente quando a potência instalada não tem água para possibilitar seu aproveitamento total, ofertando energia elétrica de forma complementar e firmando a energia marginal da geração hidrelétrica no período úmido.

Outro fato importante é a produção significativa de cana-de-açúcar (70%) coincidir com a região Sudeste, onde ocorre a maior demanda de energia elétrica do país – grande parte importada de outras regiões -, oferecendo, ainda, maior segurança ao sistema de transmissão. Seu aproveitamento também dispensa investimentos em linhas de transmissão.

Há quinze anos, após a consolidação do álcool carburante no país, o setor sucroalcooleiro tem tentado deixar de desperdiçar esse enorme potencial, pois se trata de uma matéria-prima que é queimada a cada safra em todo o território nacional. É como o gás natural queimado nos \”flats\” dos poços de petróleo, na bacia de Campos, com uma diferença fundamental: os resíduos da cana já se encontram nas próprias usinas.

Se os investimentos em co-geração tivessem ocorrido naquela ocasião, o país não teria vivido a amarga experiência do ano passado. Deixar de desperdiçar esse potencial não significa só resolver uma questão meramente conjuntural, mas solucionar um problema estrutural que vai além da energia elétrica. O uso do álcool carburante na matriz energética representa a expansão do cultivo da cana e, em conseqüência, da oferta de energia, o que atende uma política energética baseada em fontes renováveis e limpas.

 

A adoção da energia do resíduo da cana mostra que o Brasil está formulando uma proposta responsável em termos mundiais. Também significa levar o desenvolvimento para o interior do país, ocupando terras ociosas, gerando empregos para uma mão-de-obra pouco qualificada e desenvolvendo a indústria de base nacional.

Mas, infelizmente, parece que não é essa a visão dos responsáveis diretos em viabilizar essa enorme riqueza brasileira, e só nos resta a pergunta: \”Como entender esse desperdício?\”

(janeiro/2002)

Onorio Kitayama é especialista em bioeletricidade e consultor da UNICA. 

 

Fonte: http://www.unica.com.br/opiniao/show.asp?msgCode={85FFD6BF-C012-495C-B58A-3876BDBBD5F7}