Pesca

Métodos de pesca

Existem várias técnicas de pesca que são praticadas no alto rio Tiquié, podendo ser divididas em seis modalidades diferentes:

  1. pesca de piracema
  2. pesca com dispositivos fixos (armadilhas)
  3. pesca com timbó (tinguijada)
  4. pesca com malhadeiras
  5. pescaria de anzol
  6. pesca noturna (facho)

1- Pesca de piracema

A piracema é a única ocasião no rio Tiquié em que as espécies de peixes maiores (>25 cm) formam um cardume, sendo que esta concentração temporária de exemplares adultos os torna uma presa atraente para os pescadores. No alto rio Tiquié a piracema das diferentes espécies de aracu representa o evento de maior fartura do calendário pesqueiro. Para os pescadores que atuam entre Pari-Cachoeira e Caruru, por exemplo, o Aracu-riscado tem maior significado – esta espécie faz a sua piracema no rio e não consegue subir acima da cachoeira de Caruru. Já as piracemas de Aracu-três-pintas são consideradas os eventos pesqueiros mais importantes entre Pari-Cachoeira e a corredeira de Pedra Curta. Normalmente este aracu realiza a sua piracema no igapó, mas na falta deste, como no caso na região entre Pedra Curta e Cachoeira Comprida, por exemplo, costuma fazê-lo também na turbulência das corredeiras. O Aracu-de-pau realiza sua piracema somente na porção acima de Cachoeira Comprida (em território colombiano), apesar de também ser encontrado individualmente nos trechos jusante de Cachoeira Comprida, assim como seus juvenis.

Tradicionalmente, a pesca de piracema se realiza com a ajuda do jererê, um tipo de puçá grande, de forma elíptica. Antigamente, a rede do jererê era feita principalmente de fibra de tucumã, mas no alto Tiquié observou-se que atualmente a maioria é feita com malhadeiras de naylon. Os jererês são usados principalmente nas piracemas de igapó. Nas piracemas de rio, entretanto, onde há mais espaço para manobras, se está utilizando somente a malhadeira convencional.

Na piracema de Aracu-riscado, por exemplo, que acontece à noite, no meio do rio, o procedimento da pesca é o seguinte: quando se dão as condições propícias (chuva e um aumento constante do nível d’água), a população ribeirinha espreita atentamente os movimentos dos aracus durante o dia, no intuito de verificar se há formação do cardume e, se for o caso, aonde ele poderá ocorrer. Nisto, o comportamento dos aracus é um dos indicadores que determinam a probabilidade de uma piracema, pois nestas ocasiões estes peixes costumam acenar com o rabo fora d’água como parte do ritual que antecede o acasalamento. Existem vários locais conhecidos entre Pari-Cachoeira e Caruru onde as piracemas de Aracu-riscado costumam ocorrer. Uma vez descoberto o lugar de maior concentração dos peixes, a notícia se espalha, e os pescadores se reúnem no local pelo fim da tarde.

Ao cair da noite, a piracema se inicia (identificado pelo característico ronco do Aracu-riscado) e os pescadores levam suas canoas para o meio do rio, a montante da área de acasalamento, onde a seguir soltam alguns metros de malhadeira, deixando-se levar pela correnteza. Desta forma, eles acabam passando pelo miolo do cardume com a malhadeira estendida, na esperança de capturar alguns peixes na sua passagem. Ao chegar no final da área de concentração dos peixes (que tem dezenas de metros de extensão) os pescadores retraem a sua malhadeira e remam novamente para a posição a montante do cardume, reiniciando este procedimento até o final da piracema, o que pode durar várias horas.

Como sempre há muitas canoas que participam desta pesca de piracema, cada um tem que esperar a sua vez para poder passar pelo cardume, formando assim uma fila de canoas que descem o rio a mercê da correnteza. Ao mesmo tempo, as outras canoas sobem o rio pelas beiras, vindo de ambos os lados, formando assim uma procissão de canoas que circulam num movimento concêntrico por sobre o cardume (veja a figura). As luzes das lanternas que os pescadores geralmente carregam consigo dão um ambiente festivo a este evento.

2- Pescaria com dispositivos fixos (armadilhas)

Os TUKANO1 costumam construir uma série de dispositivos fixos para capturar peixes, principalmente durante as migrações.

O imihnó (Tukano), por exemplo, é muito usado para pegar piabas na sua subida anual, consistindo de um artefato cilíndrico feito de talas de arumã que apresenta uma pequena fenda central por onde os peixes entram à procura de alimento . Geralmente utilizam cupins como isca para atrair os peixes, que ao entrarem pela fenda não conseguem mais encontrar a saída.

O mesmo princípio é usado em um dispositivo maior, feito de tala de paxiuba, chamado de cacuri em língua geral e que também é usado para capturar os peixes na ocasião das suas migrações rio acima. O cacuri produz um remanso na correnteza, atraindo os peixes que nadam contra o fluxo d’água. Nisto, os peixes são guiados por um pari (esteira de talas que funciona como cerca ) até a abertura do cacuri. Tanto o imihnó como o cacuri são instalados na beira do rio ou do igapó.

O dispositivo chamado de jequi em língua geral é igualmente usado para capturar os peixes na sua subida anual. Consiste de uma série de matapis (covos) instalados por detrás de uma barragem feita de varas e folhas. O jequi é sempre instalado nas corredeiras do rio ou de um igarapé, para que a sua barragem produza um remanso no local, atraindo assim os peixes que tentam vencer a correnteza. Nisto, a água escorre pela barragem através de aberturas, atrás das quais se posicionam os matapis. Estas aberturas simulam uma passagem por onde os peixes poderiam prosseguir a sua trajetória rio acima, sendo capturados assim que entram no matapi.

O caiá, por outro lado, é um dispositivo de captura usado por ocasião da descida anual dos peixes. Em regra estes são colocados em pontos estratégicos das corredeiras, para que a correnteza empurre os peixes em cima de uma plataforma, onde são capturados com um puçá. Para isto, o caiá tem que ser continuamente tripulado por um “vigia”, porque senão o peixe eventualmente consegue retomar à água .

No alto rio Tiquié também se utiliza um dispositivo chamado de muhín pusuwë em Tukano, que basicamente consiste em uma espécie de cone preso a um galho retorcido. Assim que o peixe belisca a isca que se encontra dentro deste cone (geralmente frutas como o cunuri ou vacu), o dispositivo dispara e galho assume a sua posição ereta, capturando o peixe, que fica pendurado fora da água de cabeça pra baixo. O muhín pusuwë é muito usado para capturar diversas espécies de aracu.

A técnica de “botar cupim” para capturar peixes nos igarapés (Tuyuka: bohtuaqui), utiliza um dispositivo fixo muito simples que não chega a capturar o peixe propriamente dito mas que avisa o pescador da sua presença. Consiste em fincar um pedaço de ninho de cupim no fundo do igarapé com uma tala de folha de palmeira, cuja extremidade fica fora d’água. Assim que os peixes começam a beliscar a isca, as folhas da palmeira se mexem, avisando o pescador. Este geralmente se encontra de prontidão na sua canoa, aproximando-se sorrateiramente quando avisado pelo dispositivo. A captura em si é feita com a ajuda de um jererê. Isto exige uma certa destreza, pois utiliza-se um braço para espantar o peixe com o remo, enquanto que logo a seguir se pesca o peixe com o jererê, manejado pelo outro braço. Esta técnica também é muito utilizada para pescar aracus, sendo que só funciona em águas rasas e transparentes, como é o caso no alto rio Tiquié.

3- A pesca com timbó (tinguijada)

Acevedo-Rodriguez (1990) identificou um total de 935 espécies de plantas das quais se pode extrair venenos ictiotóxicos (o “timbó”), usados na captura de peixes. Esta prática ocorre no mundo todo, mas é difundida sobretudo na América tropical. Os princípios ativos destes venenos podem ser divididos em sete grupos:

  1. a rotenona;
  2. os saponáceos;
  3. glucosídeos cardíacos;
  4. alcalóides;
  5. taninos;
  6. compostos cianogênicos; e
  7. o ictiotereol.

No alto rio Tiquié utiliza-se principalmente um cipó plantado nas roças para esta finalidade, que Ribeiro (1995) identificou como sendo a espécie Tephrosia sinapu, da qual os índios Desana destinguem três cultivares. Além disto, também se conhecem espécies de plantas não domesticadas que podem ser usadas como ictiotóxicos. Contudo, os informantes afirmam que estes não possuem a mesma eficácia.

A pesca com timbó, também chamada de tinguijada em língua geral, ocorre geralmente nas estações de águas baixas, quando a diluição do veneno na água é menor. Este método consiste basicamente em introduzir o ictiotóxico a partir de um determinado ponto do rio ou igarapé para a seguir poder coletar os peixes entorpecidos num trecho a jusante. A tinguijada aparentemente não deixa resíduos tóxicos nos peixes, sendo apropriados para o consumo humano sem maiores tratamentos. A água contaminada, entretanto, pode causar fortes acessos de diarréia quando ingerida ou ainda prejudicar a visão em caso de contato com os olhos.

No caso do uso do timbó em igarapés, costuma-se atrair os peixes para dentro destes com a ajuda de iscas um dia anterior à tinguijada, fechando-se a sua foz de noite com um pari. No dia seguinte, introduz-se as plantas maceradas na cabeceira do igarapé, para depois se coletar os peixes entorpecidos com um puçá. Em geral esse método de pesca é praticado coletivamente. Entretanto, em igarapés pequenos próximos às comunidades a tinguijada pode também ser praticada individualmente, o que é feito principalmente por mulheres (viúvas, mães solteiras) devido ao fato de não exigir maiores esforços físicos.

Quando se tinguija em um lago ou no leito do rio por ocasião do verão, a quantidade de timbó usado é muito maior, o que exige uma certa preparação por parte da comunidade. O timbó é geralmente colocado em aturás (cestos), onde é misturado com barro, provavelmente para dar mais coesão à massa de plantas maceradas, evitando a sua dispersão pela água. No caso da pesca no rio, estes aturás são geralmente mergulhados a montante de uma corredeira afim de se poder pegar os peixes que ali se abrigam. Para isto se constrói uma barreira à jusante, tapada com paris, para deter os peixes entorpecidos que subsequentemente são levados pela correnteza. No caso da tinguijada em lagos, tapa-se primeiro a sua entrada para evitar a fuga dos peixes. A seguir os aturás com timbó são atados atrás de canoas e arrastados pelo fundo d’água através do lago. Os peixes que assim vão boiando são apanhados com puçás. No entanto, sabe-se que quando se utiliza esta técnica, muitos peixes intoxicados afundam, não podendo ser capturados quando as águas são profundas.

4- A pesca com malhadeiras

A calha do alto rio Tiquié oferece poucas possibilidades para o uso convencional da malhadeira, seja através do método de espera ou como arrastão. Isto se deve ao seu leito profundo, cheio de pedras, assim como a forte correnteza do rio Tiquié, que tende a levantar este utensílio como se fosse um pára-quedas. Devido a isto, os pescadores do alto rio Tiquié costumam usar a malhadeira de espera principalmente na boca dos igarapés, onde a correnteza é menor. Malhadeiras também são usadas na piracema do aracu (veja ítem 1, acima) e no trecho entre Caruru e Pedra Curta, onde podem ser posicionadas na beira do igapó ali existente, durante a época das cheias. Em contraste, à jusante de Pari-Cachoeira existem bancos de areia onde se costuma arrastar malhadeiras durante as piracemas.

As malhadeiras no alto rio Tiquié são classificadas de acordo com o tamanho da malha, que pode variar de um a quatro dedos, conforme a medida local. Além do uso convencional, a malhadeira também é utilizada em várias técnicas de pesca nos igarapés, em que os peixes são dirigidos ao seu encontro. A malhadeira usada geralmente é atada sem tralha entre duas varas, com uma panagem de três a quatro metros de comprimento e no máximo dois de altura. Este dispositivo é fincado em lugares estratégicos dos igarapés (como a boca, por exemplo) para a seguir se afugentar os peixes em sua direção. Este tipo de trabalho pode ser feito individualmente ou em grupo.

Pelo que se pode observar, a pescaria individual com este utensílio ocorre geralmente em conjunto com a pescaria de caniço (anzol). Nisto, o pescador sobe o rio na sua canoa e vai parando nos pequenos igarapés que encontra, para estender a malhadeira na sua foz. A seguir ele entra no igarapé e afugenta os peixes em direção à malhadeira. No caso de igarapés maiores, o pescador pode repetir este procedimento dentro do igarapé, fincando o dispositivo em curvas ou pequenas enseadas, desalojando os peixes escondidos debaixo de paus situados à jusante. Assim que o pescador alcança o limite do território de pesca pertencente à sua comunidade, ele desce novamente o rio ao sabor da correnteza, desta vez utilizando o caniço para pescar (veja o ítem abaixo).

5- A pesca com anzóis

No alto rio Tiquié os anzóis são utilizados para a pesca de linhas de espera (individuais ou em série) ou então em caniços. O primeiro consiste em um anzol atado a uma linha que se amarra na beira de um igarapé (geralmente em um galho), usando-se como isca a semente de certas árvores, como por exemplo o vacu, o cunuri, o japurá e outros. Às vezes estes anzóis são atados em série, formando o espinhel, que frequentemente é posicionado nas desembocaduras dos igarapés, no intuito de pegar peixes maiores. Além das sementes citadas, pode-se também utilizar espécies de peixes pequenos como isca, além de camarões ou insetos (principalmente gafanhotos).

Quando usados no caniço, pratica-se muito a pesca de gaponga ou boiada, onde se imita a queda de uma semente ou fruta no rio. Nisto, a isca é alternadamente lançada para ambos os lados da canoa. Os caniços também são muito usados para se pegar diversas espécies de piabas, utilizando-se anzóis muito pequenos, que constituem um valioso objeto de troca no alto rio Tiquié. Como isca utiliza-se muito a semente de apuí, que por ter o tamanho reduzido pode ser consumida por peixes pequenos.

Uma outra isca muito usada na pesca de caniço é uma minhoca do igapó conhecida em língua geral pelo nome de daracubi. Os habitantes da região afirmam que os peixes têm uma predileção por esta espécie, sendo que se obtém muito mais sucesso na pescaria do que quando se utiliza a minhoca comum como isca. Por esta razão, no alto rio Tiquié o daracubi também constitui um objeto de troca entre as comunidades, oferecido especialmente pelas comunidades situadas próximas ao igapó entre Caruru e Pedra Curta.

6- A pesca noturna (facho)

A pescaria noturna geralmente consiste em usar um facho de luz para localizar e paralisar o peixe nos períodos sem lua, afim de capturá-lo com uma azagaia (tipo de lança). Este tipo de pescaria é provavelmente mais difundida no percurso superior do Rio Tiquié, devido a sua maior resolução ótica em comparação com o Baixo Rio Tiquié.

A pesca de facho (ou de poronga – nome derivado das lanternas de carbureto utilizadas para este fim) é tradicional nas regiões de águas pretas e claras da Amazônia. Antigamente se queimava um feixe de piaçava para este tipo de pesca, mas hoje em dia se utiliza mais a lanterna de pilha ou a base de carbureto. Esta última, entretanto, não é mais usada no Alto Rio Tiquié, vindo a ser completamente substituída pela lanterna de pilha.

1Tucano, Tuyuka, Desana, Miriti-tapuya, Bará e Makuna. Como em português não existe um termo genérico para designar estas etnias (como no inglês Tukanoans, por exemplo, convencionou-se usar o termo TUKANO (em caixa alta) para designar este grupo. O uso do termo Tukanoanos, traduzido do inglês, não é aceito pela maior parte dos antropólogos.

Fonte: http://www.socioambiental.org/pisci/pesca.shtm