Reprodutivo

“Lenda da Embrapa” completa 10 anos

24/09/13
O primeiro clone bovino da raça holandesa obtido no Brasil foi desenvolvido pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, uma das 47 unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, em setembro de 2003. Este ano, “Lenda da Embrapa” completa dez anos de uma vida saudável junto a seus filhos, netos e bisnetos no Campo Experimental Fazenda Sucupira em Brasília, DF. O fato de ter crias saudáveis é muito importante para animais clonados, do ponto de vista da ciência, pois comprova sua capacidade reprodutiva e habilidade materna. 

 

Além de ser o primeiro clone da raça holandesa no Brasil, “Lenda da Embrapa” carrega ainda outro predicado muito importante: foi o primeiro clone desenvolvido no Brasil a partir de células de um animal que já estava morto. Esse resultado representou um marco para a ciência brasileira. A clonagem a partir de células retiradas de um animal morto abre para a ciência um excelente precedente, já que além de possibilitar a recuperação de animais de alto valor produtivo, pode ser usada também para regenerar animais silvestres ameaçados de extinção.

O processo, a clonagem, o sucesso

“Lenda da Embrapa” foi clonada a partir de células da granulosa – que circundam o óvulo – da fêmea bovina T. Melo Lenda, de elevado valor genético, morta por acidente em 5 de novembro de 2002.

A doadora T. Melo Lenda teve uma vida produtiva de fazer inveja.  Nasceu em 24 de agosto de 1995 na fazenda Vale do Sol, no município de Miguel do Passa Quatro, em Goiás, e durante seus sete anos de vida, teve cinco partos e produziu cerca de 40 mil litros de leite.  Foi classificada linearmente pela Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos da Raça Holandesa como MB (Muito Boa), alcançando 85 pontos.  Na tentativa de preservar esse material genético, foram coletados os ovários e encaminhados ao Laboratório de Reprodução Animal da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia para recuperação dos óvulos e produção de embriões in vitro.

No Laboratório, os folículos ovarianos foram dissecados e puncionados.  No entanto, apesar da coleta de 52 óvulos, nenhum embrião foi produzido. Entretanto, as células da granulosa sobreviveram às condições de transporte e se mantiveram viáveis.  Diante disso, foram cultivadas in vitro e multiplicadas até chegar à obtenção de uma quantidade razoável para realização da clonagem por transferência nuclear (TN).

A TN consiste na retirada do núcleo de um óvulo maduro, onde é alojado o núcleo da célula do indivíduo que se deseja clonar. Os embriões reconstruídos seguem para o cultivo in vitro em laboratório até atingirem a fase de blastocisto, quando são transferidos para o útero de uma vaca receptora com idade uterina sincronizada com a do embrião.

O clã de clones

“Lenda” nasceu no dia 4 de setembro de 2003. Hoje, já é mãe de três filhas saudáveis: Fábula, Fantasia e Bela; avó de Fada e Dama e bisavó de Princesa. Todas estão na Fazenda Sucupira.

Avaliar o potencial reprodutivo de animais clonados é fundamental para a pesquisa, como explica o pesquisador da Unidade, Eduardo Melo. “E nesse quesito, “Lenda” merece nota 10, já que sua família inclui até bisnetos”, comemora.

Retrospecto de sucesso na Embrapa

Em comemoração ao 10º aniversário de “Lenda da Embrapa”, vale a pena fazer um retrospecto da evolução da técnica de clonagem por transferência nuclear na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.

Em 2001, a Unidade conseguiu um feito inédito no Brasil e na América Latina: o nascimento do clone bovino da raça Simental “Vitória da Embrapa”. Ela faleceu em 2011, por complicações decorrentes da idade avançada.

Em 2003, o nascimento de “Lenda” marcou outro sucesso da equipe de biotecnologia da reprodução animal da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.

Em 2005, a equipe comemorou o nascimento de “Porã”, clone bovino da raça Junqueira, em alto risco de extinção no Brasil, com menos de 100 animais em todo o país. Paralelamente ao desenvolvimento de técnicas avançadas de biotecnologia, a Embrapa investe também na conservação e uso sustentável de raças denominadas “locais” ou “naturalizadas”.

Essas raças estão no Brasil há séculos, muitas desde a época da colonização, e por isso, desenvolveram características de rusticidade e adaptabilidade – resistência a doenças e estresses climáticos, por exemplo – adquiridas ao longo do tempo que são muito importantes em programas de melhoramento genético.

 

Fonte: Agrolink